CAPÍTULO
O JUSTICEIRO
Se despedir da mãe pela última vez é um dos momentos mais difíceis na vida de um filho. A angústia é ainda maior quando o motivo da morte é a fúria repentina do próprio pai. Foi essa dor que Carlos Henrique e Pedro Henrique Santos de Jesus sentiram no dia 1º de maio de 2023. Os dois são filhos de Simone Maria dos Santos, morta a pedradas pelo marido dentro de casa. O motivo, supostamente, foi a intenção de Simone de pôr fim ao casamento, decisão com a qual o homem não soube lidar.
No dia seguinte, durante o sepultamento, em meio aos olhares perdidos e à revolta, o único desejo dos filhos de Simone era a justiça divina. Mas uma fagulha de esperança pela justiça dos homens se acendeu ao avistarem uma figura familiar no Memorial Vale da Saudade, em Candeias. “Será que Zé consegue um advogado pra gente?” foram as primeiras palavras que trocaram com a repórter Naiara Oliveira, que cobria o velório pela TV Itapoan. O Zé em questão era José Eduardo, então apresentador do Balanço Geral Bahia. Naiara respondeu sem hesitar: “fiquem tranquilos, ele já está vendo isso”.
Não foi o primeiro e nem seria o último caso do tipo que José Eduardo ou a própria Naiara presenciaram. Todos os dias, ao chegar na TV, passavam por uma fila de pessoas pedindo auxílio financeiro ou jurídico, empregos ou um caminho para conseguir agendar uma consulta médica. Já na redação, os clamores vinham através de cartas, telefonemas e e-mails. Independente do meio, as solicitações chegavam – e continuam a chegar.
Não é um fenômeno novo que a televisão sirva como uma alternativa para pessoas em necessidade de algum serviço. Desde a chegada desse formato de mídia no Brasil, com J. Silvestre sendo um dos primeiros exemplos na distribuição de dinheiro em programas ao vivo, a função social da TV aberta está posta. De lá para cá, essa prática se desdobrou em outros tipos de assistência, de mutirões esporádicos a iniciativas fixas na programação, como o Balanço Geral nos bairros, que levava serviços para comunidades de Salvador, e o chamado Pátio do Povo, em que a TV Record abria espaço para que as pessoas compartilhassem seus apelos diretamente para as câmeras. Na Band, também havia uma atração assim: o Pátio do Bruto.
“As pessoas iam para o pátio, pediam o que queriam, desde um carrinho de mão até uma regulação na saúde, e a gente fazia o possível para ajudar. Hoje ainda tem esses pedidos, mas a gente não coloca muito no ar, ajuda mesmo com os nossos próprios recursos. Fica mais nos bastidores”, conta o apresentador Uziel Bueno, que comanda desde 2011 a versão baiana do Brasil Urgente, na Band Bahia.
Programas voltados para a prestação de serviço são parte tradicional da grade de emissoras de caráter popular. Para Renato Ferreira, doutor em Estudos da Mídia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), existem alguns motivos que justificam a população recorrer à TV por ajuda e esse movimento ter se estabelecido a ponto de se tornar intrínseco à lógica das emissoras populares. Um deles é a força dos veículos. Outro é a falta de crença no Estado.
“O poder público é falho em muitos desses aspectos de assistência social. E apresentadores e programas que têm essa linguagem assistencialista se aproveitam dessa lacuna do Estado e se transformam em espécie de ONGs. É o caso do Luciano Huck, por exemplo, que é uma espécie de ONG de apoio ao empreendedorismo, às boas práticas, ocupando, de uma certa forma, uma lacuna de um Estado que é ineficiente nessa questão”, diz.
Tendo visto de perto essa situação por quase 20 anos, José Eduardo concorda com Ferreira em relação aos motivos dos apelos. Na Record, o apresentador perdeu as contas dos pedidos que recebeu ao longo da carreira. Foram 18 anos na emissora, à frente do Se Liga Bocão, no ar entre 2008 e 2014, e do Balanço Geral, no qual ficou de 2015 a 2024.
“Eu não acredito nem por um segundo na política pública. Até um vereador resolver o problema dessa pessoa, ela vai esperar. Aí tem um líder comunitário que diz que vai resolver com o vereador e não resolve. Não tem políticas públicas, por isso as pessoas recorrem ao programa de TV. Faziam filas e filas, a ponto de eu não conseguir entrar na TV porque tinha de 100 a 180 pessoas esperando. Eu morria de pena, porque eu sabia que não poderia ajudar”, diz.
Recebia todo tipo de mensagem. “Zé, eu não tenho telhado”, “Zé, eu não tenho porta”, “Zé, minha mãe está doente e precisa de uma cama de hospital”. Mostrava isso durante o programa e sempre vinha alguém disposto a ajudar. “O nosso povo é bem solidário. As classes C, D e E são totalmente solidárias.”
Nas ruas, os repórteres viam isso de perto. Naiara Oliveira, que trabalhou com José Eduardo por cerca de três anos, diz que sentia no apresentador a confiança para relatar o que presenciava no contato direto com as pessoas. No ar, tinha todo um método para tocar o coração dos telespectadores.
“Eu ia contando aquela história e automaticamente já ia mostrando a situação de vulnerabilidade social. Que eu estava na cozinha da pessoa e ela não tinha panela, não tinha o que comer. Eu estou dizendo para quem está assistindo que eles conseguem ajudar. ‘Se tem dois quilos de arroz, você pode doar um. Chega aqui, eu estou aqui’. E por muito tempo, a gente ajudou muitas pessoas”, conta.
Renato Ferreira define essa atuação como uma forma de assistencialismo – mais especificamente como “tele-solidariedade”, termo do sociólogo argentino Nestor Garcia Canclini que ele adota em sua pesquisa. “Canclini conceitua isso como uma espécie de 'robinhoodismo às avessas'. Porque são ricos [as emissoras] que pedem esse donativo aos pobres para distribuí-lo aos pobres novamente”, explica.
Isso não necessariamente é ruim. Para quem sente fome, colocar comida na mesa é uma demanda imediata. Para os cidadãos que não conseguiram acessar os canais oficiais de defesa do consumidor, a visibilidade da TV é uma alternativa a mais na tentativa de resolver seu problema. E, em muitos casos, a intenção do jornalista realmente é ajudar.
“No entanto, as consequências disso no ambiente macro não são, na minha concepção, vantajosas. Porque o que ocorre ali naquele ambiente, via de regra, é uma estrutura de pressão, acaba sendo um ambiente de julgamento também. E aquele não é um agente da lei, é um agente midiático. Então isso perverte essa situação e, de uma certa forma, deixa o jornalismo um pouco mais fragilizado, porque passa para a população que uma das funções do jornalista seria essa de defender os interesses do povo com um poder quase de polícia”, afirma Ferreira.
Uma forma em particular de expressão desse “poder quase de polícia” chama atenção: situações com reféns em que sequestradores exigem a presença de veículos jornalísticos ou canais de TV. Em dezembro de 2024, o próprio Marcelo Castro, apresentador do programa Alô Juca, negociou com um sequestrador via chamada de vídeo enquanto se dirigia ao local do crime. Ao chegar na casa em que o homem fazia uma mulher de refém, continuou a negociação. A vítima foi liberada e o suspeito foi preso.
De acordo com o promotor de Justiça Hugo Casciano de Sant’Anna, coordenador do Centro de Apoio Operacional de Segurança Pública (Ceosp) do Ministério Público da Bahia (MP-BA), a comunicação de sequestradores com veículos jornalísticos tem como objetivo conseguir visibilidade para legitimar reivindicações, pressionar por determinadas condições e dificultar a ação policial.
“Do ponto de vista técnico, a doutrina de gestão de crises recomenda que esse tipo de comunicação seja controlado e mediado por profissionais treinados, evitando-se que a imprensa seja incorporada à negociação ou que a cobertura interfira negativamente na atuação policial ou coloque vidas em risco”, diz.
Renato Ferreira de Moraes é doutor em Estudos da Mídia pelo Programa de Pós-graduação em Estudos da Mídia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PPgEM/UFRN) e pesquisa temas relacionados à linguagem televisiva, programas populares, assistencialismo e Análise de Discurso. É autor do e-book "O Silvio Santos do RN: assistencialismo, espetáculo e afetos encenados na televisão potiguar".
Renato Ferreira de Moraes é doutor em Estudos da Mídia pelo Programa de Pós-graduação em Estudos da Mídia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PPgEM/UFRN) e pesquisa temas relacionados à linguagem televisiva, programas populares, assistencialismo e Análise de Discurso. É autor do e-book "O Silvio Santos do RN: assistencialismo, espetáculo e afetos encenados na televisão potiguar".
Se despedir da mãe pela última vez é um dos momentos mais difíceis na vida de um filho. A angústia é ainda maior quando o motivo da morte é a fúria repentina do próprio pai. Foi essa dor que Carlos Henrique e Pedro Henrique Santos de Jesus sentiram no dia 1º de maio de 2023. Os dois são filhos de Simone Maria dos Santos, morta a pedradas pelo marido dentro de casa. O motivo, supostamente, foi a intenção de Simone de pôr fim ao casamento, decisão com a qual o homem não soube lidar.
No dia seguinte, durante o sepultamento, em meio aos olhares perdidos e à revolta, o único desejo dos filhos de Simone era a justiça divina. Mas uma fagulha de esperança pela justiça dos homens se acendeu ao avistarem uma figura familiar no Memorial Vale da Saudade, em Candeias. “Será que Zé consegue um advogado pra gente?” foram as primeiras palavras que trocaram com a repórter Naiara Oliveira, que cobria o velório pela TV Itapoan. O Zé em questão era José Eduardo, então apresentador do Balanço Geral Bahia. Naiara respondeu sem hesitar: “fiquem tranquilos, ele já está vendo isso”.
Não foi o primeiro e nem seria o último caso do tipo que José Eduardo ou a própria Naiara presenciaram. Todos os dias, ao chegar na TV, passavam por uma fila de pessoas pedindo auxílio financeiro ou jurídico, empregos ou um caminho para conseguir agendar uma consulta médica. Já na redação, os clamores vinham através de cartas, telefonemas e e-mails. Independente do meio, as solicitações chegavam – e continuam a chegar.
Não é um fenômeno novo que a televisão sirva como uma alternativa para pessoas em necessidade de algum serviço. Desde a chegada desse formato de mídia no Brasil, com J. Silvestre sendo um dos primeiros exemplos na distribuição de dinheiro em programas ao vivo, a função social da TV aberta está posta. De lá para cá, essa prática se desdobrou em outros tipos de assistência, de mutirões esporádicos a iniciativas fixas na programação, como o Balanço Geral nos bairros, que levava serviços para comunidades de Salvador, e o chamado Pátio do Povo, em que a TV Record abria espaço para que as pessoas compartilhassem seus apelos diretamente para as câmeras. Na Band, também havia uma atração assim: o Pátio do Bruto.
“As pessoas iam para o pátio, pediam o que queriam, desde um carrinho de mão até uma regulação na saúde, e a gente fazia o possível para ajudar. Hoje ainda tem esses pedidos, mas a gente não coloca muito no ar, ajuda mesmo com os nossos próprios recursos. Fica mais nos bastidores”, conta o apresentador Uziel Bueno, que comanda desde 2011 a versão baiana do Brasil Urgente, na Band Bahia.
Programas voltados para a prestação de serviço são parte tradicional da grade de emissoras de caráter popular. Para Renato Ferreira, doutor em Estudos da Mídia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), existem alguns motivos que justificam a população recorrer à TV por ajuda e esse movimento ter se estabelecido a ponto de se tornar intrínseco à lógica das emissoras populares. Um deles é a força dos veículos. Outro é a falta de crença no Estado.
“O poder público é falho em muitos desses aspectos de assistência social. E apresentadores e programas que têm essa linguagem assistencialista se aproveitam dessa lacuna do Estado e se transformam em espécie de ONGs. É o caso do Luciano Huck, por exemplo, que é uma espécie de ONG de apoio ao empreendedorismo, às boas práticas, ocupando, de uma certa forma, uma lacuna de um Estado que é ineficiente nessa questão”, diz.
Tendo visto de perto essa situação por quase 20 anos, José Eduardo concorda com Ferreira em relação aos motivos dos apelos. Na Record, o apresentador perdeu as contas dos pedidos que recebeu ao longo da carreira. Foram 18 anos na emissora, à frente do Se Liga Bocão, no ar entre 2008 e 2014, e do Balanço Geral, no qual ficou de 2015 a 2024.
“Eu não acredito nem por um segundo na política pública. Até um vereador resolver o problema dessa pessoa, ela vai esperar. Aí tem um líder comunitário que diz que vai resolver com o vereador e não resolve. Não tem políticas públicas, por isso as pessoas recorrem ao programa de TV. Faziam filas e filas, a ponto de eu não conseguir entrar na TV porque tinha de 100 a 180 pessoas esperando. Eu morria de pena, porque eu sabia que não poderia ajudar”, diz.
Recebia todo tipo de mensagem. “Zé, eu não tenho telhado”, “Zé, eu não tenho porta”, “Zé, minha mãe está doente e precisa de uma cama de hospital”. Mostrava isso durante o programa e sempre vinha alguém disposto a ajudar. “O nosso povo é bem solidário. As classes C, D e E são totalmente solidárias.”
Nas ruas, os repórteres viam isso de perto. Naiara Oliveira, que trabalhou com José Eduardo por cerca de três anos, diz que sentia no apresentador a confiança para relatar o que presenciava no contato direto com as pessoas. No ar, tinha todo um método para tocar o coração dos telespectadores.
“Eu ia contando aquela história e automaticamente já ia mostrando a situação de vulnerabilidade social. Que eu estava na cozinha da pessoa e ela não tinha panela, não tinha o que comer. Eu estou dizendo para quem está assistindo que eles conseguem ajudar. ‘Se tem dois quilos de arroz, você pode doar um. Chega aqui, eu estou aqui’. E por muito tempo, a gente ajudou muitas pessoas”, conta.
Renato Ferreira define essa atuação como uma forma de assistencialismo – mais especificamente como “tele-solidariedade”, termo do sociólogo argentino Nestor Garcia Canclini que ele adota em sua pesquisa. “Canclini conceitua isso como uma espécie de 'robinhoodismo às avessas'. Porque são ricos [as emissoras] que pedem esse donativo aos pobres para distribuí-lo aos pobres novamente”, explica.
Isso não necessariamente é ruim. Para quem sente fome, colocar comida na mesa é uma demanda imediata. Para os cidadãos que não conseguiram acessar os canais oficiais de defesa do consumidor, a visibilidade da TV é uma alternativa a mais na tentativa de resolver seu problema. E, em muitos casos, a intenção do jornalista realmente é ajudar.
“No entanto, as consequências disso no ambiente macro não são, na minha concepção, vantajosas. Porque o que ocorre ali naquele ambiente, via de regra, é uma estrutura de pressão, acaba sendo um ambiente de julgamento também. E aquele não é um agente da lei, é um agente midiático. Então isso perverte essa situação e, de uma certa forma, deixa o jornalismo um pouco mais fragilizado, porque passa para a população que uma das funções do jornalista seria essa de defender os interesses do povo com um poder quase de polícia”, afirma Ferreira.
Uma forma em particular de expressão desse “poder quase de polícia” chama atenção: situações com reféns em que sequestradores exigem a presença de veículos jornalísticos ou canais de TV. Em dezembro de 2024, o próprio Marcelo Castro, apresentador do programa Alô Juca, negociou com um sequestrador via chamada de vídeo enquanto se dirigia ao local do crime. Ao chegar na casa em que o homem fazia uma mulher de refém, continuou a negociação. A vítima foi liberada e o suspeito foi preso.
De acordo com o promotor de Justiça Hugo Casciano de Sant’Anna, coordenador do Centro de Apoio Operacional de Segurança Pública (Ceosp) do Ministério Público da Bahia (MP-BA), a comunicação de sequestradores com veículos jornalísticos tem como objetivo conseguir visibilidade para legitimar reivindicações, pressionar por determinadas condições e dificultar a ação policial.
“Do ponto de vista técnico, a doutrina de gestão de crises recomenda que esse tipo de comunicação seja controlado e mediado por profissionais treinados, evitando-se que a imprensa seja incorporada à negociação ou que a cobertura interfira negativamente na atuação policial ou coloque vidas em risco”, diz.
Entre a ajuda e exploração
“Se eu tivesse, ajudava. Não poderia ajudar muito porque não tenho muito”, diz a aposentada Maria Vicentina Carvalho, 81, quando perguntada qual seria sua reação caso visse um pedido de ajuda na TV, vindo de um jornalista que ela gosta e destinado a pessoas em necessidade.
A boa vontade de dona Vicentina se repete em lares Brasil afora. Em Salvador, não é diferente. “Geralmente as doações vinham do pobre, do preto, da periferia. Esses que são massacrados, esses que são pisoteados. Eles têm coração. Eles querem fazer a doação, se viram para doar”, afirma o apresentador José Eduardo.
Da atribuição de uma figura justiceira aos jornalistas nasce um perigo: que alguns abusem dessa disposição do público em ajudar. Na capital baiana, o risco tomou forma. Tente imaginar. Um programa exibe semanalmente casos de pessoas em situação de vulnerabilidade, seja uma família que passa fome ou uma mãe cujo filho tem uma doença grave e precisa de medicamentos que ela não consegue pagar. O apresentador anuncia uma chave Pix para que os telespectadores comovidos possam fazer doações e ajudá-los. Uma boa ação do jornalismo social. Se não fosse pelo fato de que as famílias nunca veriam a maior parte daquele dinheiro.
Por meio de chaves Pix de pessoas relacionadas a eles, o apresentador Marcelo Castro, o editor-chefe Jamerson Oliveira e outras dez pessoas supostamente desviavam o valor arrecadado durante as campanhas que faziam no Balanço Geral.
Foi assim até março de 2023, quando Anderson Talisca, ex-jogador do Bahia, se compadeceu enquanto assistia e fez uma doação generosa para um dos casos noticiados, uma criança que precisava ter acesso a um tratamento para tumores na cabeça e na barriga. Após doar R$70 mil, o atleta entrou em contato com a família do menino para checar o estado de saúde e tentar obter algum tipo de recibo para declarar o imposto de renda. Se surpreendeu ao descobrir que a família não tinha recebido a quantia e que o menino havia morrido.
Todos os suspeitos iniciais – Marcelo Castro, Jamerson Oliveira e Lucas Costa Santos – foram demitidos da emissora. Só Marcelo e Jamerson teriam movimentado mais de R$3,4 milhões de reais em um ano a partir desse esquema, entre saídas e entradas. Em agosto de 2024, o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) classificou o grupo envolvido como uma organização criminosa, visto que havia entre eles uma hierarquia na divisão de funções, na qual o repórter e o editor exerciam papéis de liderança.
Hoje, o processo segue em curso, com julgamento postergado mais de uma vez. O mais recente adiamento foi divulgado no dia 17 de novembro, para maio de 2026, sob a justificativa de falta de espaço em uma sala do Tribunal de Justiça de Salvador. Os embates jurídicos, porém, não foram o suficiente para ameaçar a imagem de Marcelo Castro em relação aos espectadores.
Pelo contrário: nesse período, sua página Alô Juca cresceu exponencialmente. Chegou a acumular mais de um milhão de seguidores na página principal do Instagram, que caiu. Na conta reserva, usada atualmente, são 736 mil seguidores. A partir dessa aliança estabelecida com seu público, o Alô Juca recebe denúncias em forma de vídeo dos espectadores, funcionando como um produto voltado para uma espécie de construção conjunta do que é noticiado.
O nome surgiu do apelido que o repórter deu aos policiais que participavam das operações e não queriam se identificar. “Todo mundo é Juca”, disse Castro em entrevista a Danilo Gentili em junho deste ano. Hoje, o bordão nomeia o programa comandado por Castro na TV Aratu, onde foi contratado pouco mais de um ano depois da demissão na Record. Sob o mote “O rei da rua chegou”, a atração figura no topo do ranking de audiência de meio dia na televisão baiana desde a estreia.
Por ter amizade com policiais, o apresentador e sua equipe costumam ser os primeiros a chegar nas cenas de crimes. A relação com as polícias é tão próxima que, no dia 11 de julho deste ano, Marcelo Castro recebeu ao vivo uma moeda institucional da Polícia Civil diretamente do delegado-geral André Viana – mesmo sendo investigado.
De segunda a sexta-feira, das 11h às 13h45, os telespectadores vêem operações policiais, casos de crime, intrigas, momentos descontraídos do apresentador com os repórteres e os ocasionais pedidos de ajuda. Dona Vicentina é uma das espectadoras fieis, mas diz não ter preferência: assiste ao que estiver passando, o importante é assistir. Geralmente fica entre o Alô Juca e os telejornais da TV Itapoan.
No caso do Alô Juca, assim como muitos outros programas policialescos, um traço é palpável: a espetacularização do sofrimento alheio e violação de direitos humanos, especialmente de pessoas pobres e negras.
“[Esses programas] se valem de uma situação privilegiada, que é a visibilidade jornalística ou, muitas vezes, o veículo de comunicação ou a marca jornalística, para fazer o que chamam de ‘jornalismo social’ e coisas do tipo. Tem muito pouco de social, né? Tem muito mais ali de show, de entretenimento, uma questão mais híbrida. E, em algumas situações, não só aspectos antiéticos, mas inclusive aspectos ilegais”, afirma o jornalista Rogério Christofoletti, co-fundador do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS).
Os dados mais recentes a respeito desse comportamento não são novos, mas ajudam a entender como funcionam essas atrações. Estão no Guia de Violações de Direitos na Mídia Brasileira, elaborado em 2015 pela ANDI – Comunicação e Direitos, em parceria com o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC/MPF).
A pesquisa mapeou programas de TV e rádio de dez capitais brasileiras. Em Salvador, os títulos televisivos observados foram o Na Mira (TV Aratu) e o Brasil Urgente (Band). Em 30 dias de análise, foram identificadas 64 narrativas com violações a direitos humanos nesses dois.
Uziel Bueno se lembra bem dessas situações. Criador do Na Mira e responsável pela apresentação do programa até a descontinuação em 2015, ele conta que o programa chegou a ser censurado pelo Ministério Público devido às imagens explícitas que exibia.
“Era muito novo. Nem a gente mesmo sabia o que podia mostrar. A gente colocava corpos expostos com bala, com tiro, com sangue. Porque também não entendíamos, foi o primeiro [programa] a fazer isso na Bahia e um dos primeiros no Brasil. A mostrar homicídio mesmo, porque antes o jornalismo policial era resumido a entrevistar preso em delegacia. A gente começou a fazer a operação policial e mostrar realmente os homicídios”, diz.
Segundo o promotor Hugo Casciano de Sant’Anna, o MP-BA acompanha e apura denúncias relativas à veiculação de conteúdos que possam configurar crime, estigmatização de grupos vulneráveis, exposição indevida de vítimas ou suspeitos e outras violações de direitos. Ele diz ainda que o caso batizado como Golpe do Pix intensificou ainda mais a análise das práticas adotadas por emissoras na condução de quadros assistenciais e na abordagem de temas de segurança pública.
“Entre as medidas em desenvolvimento, destacam-se o monitoramento mais sistemático de conteúdos potencialmente lesivos; a interlocução com emissoras para definição de protocolos de validação e transparência em campanhas de doação; a expedição de recomendações para evitar práticas sensacionalistas, exposição indevida de pessoas vulneráveis e violações à dignidade humana; a cooperação com órgãos reguladores, instituições de defesa de direitos e entidades da sociedade civil. Essas iniciativas têm caráter preventivo e visam reduzir impactos negativos ao público, garantindo que a atividade jornalística seja exercida com responsabilidade social”, afirma.
Entramos em contato com Marcelo Castro para entrevista, mas não obtivemos resposta. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia (Sinjorba) também foi procurado e questionado sobre ações da associação para lidar com situações como o Golpe do Pix, mas não houve retorno até o fechamento desta reportagem.
Entre a ajuda e exploração
“Se eu tivesse, ajudava. Não poderia ajudar muito porque não tenho muito”, diz a aposentada Maria Vicentina Carvalho, 81, quando perguntada qual seria sua reação caso visse um pedido de ajuda na TV, vindo de um jornalista que ela gosta e destinado a pessoas em necessidade.
A boa vontade de dona Vicentina se repete em lares Brasil afora. Em Salvador, não é diferente. “Geralmente as doações vinham do pobre, do preto, da periferia. Esses que são massacrados, esses que são pisoteados. Eles têm coração. Eles querem fazer a doação, se viram para doar”, afirma o apresentador José Eduardo.
Da atribuição de uma figura justiceira aos jornalistas nasce um perigo: que alguns abusem dessa disposição do público em ajudar. Na capital baiana, o risco tomou forma. Tente imaginar. Um programa exibe semanalmente casos de pessoas em situação de vulnerabilidade, seja uma família que passa fome ou uma mãe cujo filho tem uma doença grave e precisa de medicamentos que ela não consegue pagar. O apresentador anuncia uma chave Pix para que os telespectadores comovidos possam fazer doações e ajudá-los. Uma boa ação do jornalismo social. Se não fosse pelo fato de que as famílias nunca veriam a maior parte daquele dinheiro.
Por meio de chaves Pix de pessoas relacionadas a eles, o apresentador Marcelo Castro, o editor-chefe Jamerson Oliveira e outras dez pessoas supostamente desviavam o valor arrecadado durante as campanhas que faziam no Balanço Geral.
Foi assim até março de 2023, quando Anderson Talisca, ex-jogador do Bahia, se compadeceu enquanto assistia e fez uma doação generosa para um dos casos noticiados, uma criança que precisava ter acesso a um tratamento para tumores na cabeça e na barriga. Após doar R$70 mil, o atleta entrou em contato com a família do menino para checar o estado de saúde e tentar obter algum tipo de recibo para declarar o imposto de renda. Se surpreendeu ao descobrir que a família não tinha recebido a quantia e que o menino havia morrido.
Todos os suspeitos iniciais – Marcelo Castro, Jamerson Oliveira e Lucas Costa Santos – foram demitidos da emissora. Só Marcelo e Jamerson teriam movimentado mais de R$3,4 milhões de reais em um ano a partir desse esquema, entre saídas e entradas. Em agosto de 2024, o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) classificou o grupo envolvido como uma organização criminosa, visto que havia entre eles uma hierarquia na divisão de funções, na qual o repórter e o editor exerciam papéis de liderança.
Hoje, o processo segue em curso, com julgamento postergado mais de uma vez. O mais recente adiamento foi divulgado no dia 17 de novembro, para maio de 2026, sob a justificativa de falta de espaço em uma sala do Tribunal de Justiça de Salvador. Os embates jurídicos, porém, não foram o suficiente para ameaçar a imagem de Marcelo Castro em relação aos espectadores.
Pelo contrário: nesse período, sua página Alô Juca cresceu exponencialmente. Chegou a acumular mais de um milhão de seguidores na página principal do Instagram, que caiu. Na conta reserva, usada atualmente, são 736 mil seguidores. A partir dessa aliança estabelecida com seu público, o Alô Juca recebe denúncias em forma de vídeo dos espectadores, funcionando como um produto voltado para uma espécie de construção conjunta do que é noticiado.
O nome surgiu do apelido que o repórter deu aos policiais que participavam das operações e não queriam se identificar. “Todo mundo é Juca”, disse Castro em entrevista a Danilo Gentili em junho deste ano. Hoje, o bordão nomeia o programa comandado por Castro na TV Aratu, onde foi contratado pouco mais de um ano depois da demissão na Record. Sob o mote “O rei da rua chegou”, a atração figura no topo do ranking de audiência de meio dia na televisão baiana desde a estreia.
Por ter amizade com policiais, o apresentador e sua equipe costumam ser os primeiros a chegar nas cenas de crimes. A relação com as polícias é tão próxima que, no dia 11 de julho deste ano, Marcelo Castro recebeu ao vivo uma moeda institucional da Polícia Civil diretamente do delegado-geral André Viana – mesmo sendo investigado.
De segunda a sexta-feira, das 11h às 13h45, os telespectadores vêem operações policiais, casos de crime, intrigas, momentos descontraídos do apresentador com os repórteres e os ocasionais pedidos de ajuda. Dona Vicentina é uma das espectadoras fieis, mas diz não ter preferência: assiste ao que estiver passando, o importante é assistir. Geralmente fica entre o Alô Juca e os telejornais da TV Itapoan.
No caso do Alô Juca, assim como muitos outros programas policialescos, um traço é palpável: a espetacularização do sofrimento alheio e violação de direitos humanos, especialmente de pessoas pobres e negras.
“[Esses programas] se valem de uma situação privilegiada, que é a visibilidade jornalística ou, muitas vezes, o veículo de comunicação ou a marca jornalística, para fazer o que chamam de ‘jornalismo social’ e coisas do tipo. Tem muito pouco de social, né? Tem muito mais ali de show, de entretenimento, uma questão mais híbrida. E, em algumas situações, não só aspectos antiéticos, mas inclusive aspectos ilegais”, afirma o jornalista Rogério Christofoletti, co-fundador do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS).
Os dados mais recentes a respeito desse comportamento não são novos, mas ajudam a entender como funcionam essas atrações. Estão no Guia de Violações de Direitos na Mídia Brasileira, elaborado em 2015 pela ANDI – Comunicação e Direitos, em parceria com o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC/MPF).
A pesquisa mapeou programas de TV e rádio de dez capitais brasileiras. Em Salvador, os títulos televisivos observados foram o Na Mira (TV Aratu) e o Brasil Urgente (Band). Em 30 dias de análise, foram identificadas 64 narrativas com violações a direitos humanos nesses dois.
Uziel Bueno se lembra bem dessas situações. Criador do Na Mira e responsável pela apresentação do programa até a descontinuação em 2015, ele conta que o programa chegou a ser censurado pelo Ministério Público devido às imagens explícitas que exibia.
“Era muito novo. Nem a gente mesmo sabia o que podia mostrar. A gente colocava corpos expostos com bala, com tiro, com sangue. Porque também não entendíamos, foi o primeiro [programa] a fazer isso na Bahia e um dos primeiros no Brasil. A mostrar homicídio mesmo, porque antes o jornalismo policial era resumido a entrevistar preso em delegacia. A gente começou a fazer a operação policial e mostrar realmente os homicídios”, diz.
Segundo o promotor Hugo Casciano de Sant’Anna, o MP-BA acompanha e apura denúncias relativas à veiculação de conteúdos que possam configurar crime, estigmatização de grupos vulneráveis, exposição indevida de vítimas ou suspeitos e outras violações de direitos. Ele diz ainda que o caso batizado como Golpe do Pix intensificou ainda mais a análise das práticas adotadas por emissoras na condução de quadros assistenciais e na abordagem de temas de segurança pública.
“Entre as medidas em desenvolvimento, destacam-se o monitoramento mais sistemático de conteúdos potencialmente lesivos; a interlocução com emissoras para definição de protocolos de validação e transparência em campanhas de doação; a expedição de recomendações para evitar práticas sensacionalistas, exposição indevida de pessoas vulneráveis e violações à dignidade humana; a cooperação com órgãos reguladores, instituições de defesa de direitos e entidades da sociedade civil. Essas iniciativas têm caráter preventivo e visam reduzir impactos negativos ao público, garantindo que a atividade jornalística seja exercida com responsabilidade social”, afirma.
Entramos em contato com Marcelo Castro para entrevista, mas não obtivemos resposta. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia (Sinjorba) também foi procurado e questionado sobre ações da associação para lidar com situações como o Golpe do Pix, mas não houve retorno até o fechamento desta reportagem.




