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CAPÍTULO
 

A VOZ DO POVO

Quando a cozinheira Valdilene Ferreira, de 51 anos, liga a TV para assistir ao jornal, uma coisa é indispensável. “Eu gosto quando pensam no próximo e fazem o possível para resolver os problemas que as pessoas levam para eles. Quando representam a voz do povo”, diz. 

 

Dona Valdilene é uma das muitas pessoas que pensam assim. Ter bom humor, passar segurança, ir atrás do que as pessoas precisam. As respostas são muitas quando a pergunta é “o que um jornalista de TV precisa fazer?”, e não são raras as que vão além do simples informar. A mais comum, porém, é falar para a população e por ela.

A ideia do jornalista como um representante da voz do povo não é algo novo e está relacionada diretamente à noção de quarto poder, termo usado pela primeira vez ainda no século XIX e que ganhou notoriedade na década de 1950. Segundo essa concepção, o jornalismo exerce um poder moderador na sociedade – e seria, dessa maneira, responsável por fiscalizar os outros três poderes e amplificar as necessidades e demandas da população. 

Itania Gomes, jornalista, Doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas e Professora Titular Aposentada da Universidade Federal da Bahia (UFBA), explica que a relação entre jornalismo e comunidade é antiga e bastante regulada. “Nesse sentido, ele pode se configurar tanto como um lugar de vigilância, vamos dizer assim, quanto uma ideia de falar pelo povo, o que seria ali a ‘voz do povo’, na perspectiva de que não dá para ter uma entrada direta da sociedade na relação com o que está acontecendo no mundo”, afirma.

De acordo com a professora, essa atribuição social à prática tende a ser relacionada ao jornalismo britânico e ao estadunidense, considerados dois formuladores da área, mas a perspectiva histórica localiza essa tendência no jornalismo realizado na França. A atenção, segundo ela, deve estar na sociedade em questão, para que o campo não seja unificado e pensado como “qualquer coisa apartada de uma relação com a cultura em que ele se realiza”. 

“Inclusive porque se a gente pensar nesses três países, Estados Unidos, Inglaterra e França, que são normalmente considerados como referências, as relações com a democracia são diferentes e as relações históricas com o jornalismo também. Por exemplo, se pensarmos a França e a Inglaterra, há mais uma perspectiva de um jornalismo pensado como serviço público. No contexto dos Estados Unidos, ele praticamente já nasce numa perspectiva de quarto poder”, diz.

Itania Maria Mota Gomes é Professora Titular Aposentada da Universidade Federal da Bahia, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas e bolsista produtividade em Pesquisa do CNPq.  Coordena o Centro de Pesquisa em Estudos Culturais e Transformações na Comunicação. É também a organizadora de livros como "Análise de Telejornalismo. Desafios Teóricos-Metodológicos" (2013) e "Gêneros Televisivos e Modos de Endereçamento no Telejornalismo" (2011)

Quando a cozinheira Valdilene Ferreira, de 51 anos, liga a TV para assistir ao jornal, uma coisa é indispensável. “Eu gosto quando pensam no próximo e fazem o possível para resolver os problemas que as pessoas levam para eles. Quando representam a voz do povo”, diz. 


Dona Valdilene é uma das muitas pessoas que pensam assim. Ter bom humor, passar segurança, ir atrás do que as pessoas precisam. As respostas são muitas quando a pergunta é “o que um jornalista de TV precisa fazer?”, e não são raras as que vão além do simples informar. A mais comum, porém, é falar para a população e por ela.

1828

O termo “quarto poder” é utilizado pela primeira vez, pelo político e historiador britânico Thomas Macaulay

1952

No Brasil, ganha versão na TV o Repórter Esso, primeiro noticiário a dar destaque à figura do repórter como “testemunha ocular da história”

1985

Surge o Bahia Manchete (TV Bahia), primeiro telejornal da bahia, seguindo o padrão dos jornais nacionais. tirava o sotaque e sinais de regionalidade em busca da imparcialidade

Início do séc. XXI

Outros canais passam a adotar o estilo popularesco para se aproximar dos telespectadores. Alguns exemplos são o surgimento do quadro Desaparecidos na TV Bahia, em 2001, e o Se Liga Bocão, em 2006 

anos
1930

Surgem os primeiros programas de TV, pela BBC, no Reino Unido

1960

Nasce a TV Itapoan, primeira emissora da Bahia. Retransmitia a extinta TV Tupi, presidida pelo jornalista Assis Chateaubriand

Balanço Geral estreia na TV, quatro anos após surgir como programa de rádio

1997

Raimundo Varela assume o Balanço Geral, com uma lógica diferente dos outros telejornalistas locais: desbocado, sem filtro, populista

A ideia do jornalista como um representante da voz do povo não é algo novo e está relacionada diretamente à noção de quarto poder, termo usado pela primeira vez ainda no século XIX e que ganhou notoriedade na década de 1950. Segundo essa concepção, o jornalismo exerce um poder moderador na sociedade – e seria, dessa maneira, responsável por fiscalizar os outros três poderes e amplificar as necessidades e demandas da população. 

Itania Gomes, jornalista, Doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas e Professora Titular Aposentada da Universidade Federal da Bahia (UFBA), explica que a relação entre jornalismo e comunidade é antiga e bastante regulada. “Nesse sentido, ele pode se configurar tanto como um lugar de vigilância, vamos dizer assim, quanto uma ideia de falar pelo povo, o que seria ali a ‘voz do povo’, na perspectiva de que não dá para ter uma entrada direta da sociedade na relação com o que está acontecendo no mundo”, afirma.

De acordo com a professora, essa atribuição social à prática tende a ser relacionada ao jornalismo britânico e ao estadunidense, considerados dois formuladores da área, mas a perspectiva histórica localiza essa tendência no jornalismo realizado na França. A atenção, segundo ela, deve estar na sociedade em questão, para que o campo não seja unificado e pensado como “qualquer coisa apartada de uma relação com a cultura em que ele se realiza”. 

“Inclusive porque se a gente pensar nesses três países, Estados Unidos, Inglaterra e França, que são normalmente considerados como referências, as relações com a democracia são diferentes e as relações históricas com o jornalismo também. Por exemplo, se pensarmos a França e a Inglaterra, há mais uma perspectiva de um jornalismo pensado como serviço público. No contexto dos Estados Unidos, ele praticamente já nasce numa perspectiva de quarto poder”, diz.

Itania Maria Mota Gomes é Professora Titular Aposentada da Universidade Federal da Bahia, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas e bolsista produtividade em Pesquisa do CNPq.  Coordena o Centro de Pesquisa em Estudos Culturais e Transformações na Comunicação. É também a organizadora de livros como "Análise de Telejornalismo. Desafios Teóricos-Metodológicos" (2013) e "Gêneros Televisivos e Modos de Endereçamento no Telejornalismo" (2011)

Desde as primeiras menções ao “quarto poder”, muito se debateu sobre o fundamento dessa visão e como ela se encaixaria em diferentes culturas. Mas continuou firme e forte a figura do jornalista como um defensor da população, alguém que ecoa as demandas, seja nas ruas ou atrás de uma bancada. Na Bahia, essa tendência se fortaleceu com o surgimento da TV Aratu, então afiliada da TV Globo no estado e atual afiliada do SBT, no fim da década de 1960. Enquanto a TV Itapoan, primeira emissora do estado, nasceu com um caráter experimental, a Aratu trouxe o direcionamento para as mazelas da cidade, escancarando-as.

Tempos depois, o jornalismo popular, voltado para as queixas e demandas dos baianos, se consagrou através de um nome bem conhecido no estado: Raimundo Varela. Foi ele quem fundou o Balanço Geral, que transita entre o jornalismo comunitário e policial, e que foi levado posteriormente para as afiliadas da Record Brasil afora.

“Eu achava ele corajoso, valente, sem medo de dizer o que pensava. Ele era um exemplo para mim. Era uma pessoa que pensava como eu penso e que podia dizer, tinha como e onde dizer. Eu sempre concordei com aquele cartão vermelho dele. ‘Vai, Varela, fala aí o que eu não posso dizer. Fala aí por mim’”, relata a atriz Jorgina Alvim, de 64 anos. “Eu queria que ele fosse prefeito. Votaria nele uma vez, só porque não poderia votar mais.”

Com seus cartões vermelhos e verdes, batidas na mesa e voz imponente, o apresentador dizia o que pensava e assim atraiu espectadores fiéis. Varela, que morreu em 2023 aos 75 anos, teve muitos trabalhos antes de entrar na comunicação, mas foi nessa área que se consolidou e dedicou-se por mais de cinco décadas.

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1952

No Brasil, ganha versão na TV o Repórter Esso, primeiro noticiário a dar destaque à figura do repórter como “testemunha ocular da história”

1985

Surge o Bahia Manchete (TV Bahia), primeiro telejornal da bahia, seguindo o padrão dos jornais nacionais. tirava o sotaque e sinais de regionalidade em busca da imparcialidade

Início do séc. XXI

Outros canais passam a adotar o estilo popularesco para se aproximar dos telespectadores. Alguns exemplos são o surgimento do quadro Desaparecidos na TV Bahia, em 2001, e o Se Liga Bocão, em 2006 

1828

O termo “quarto poder” é utilizado pela primeira vez, pelo político e historiador britânico Thomas Macaulay

Anos
1930

Surgem os primeiros programas de TV, pela BBC, no Reino Unido

1960

Nasce a TV Itapoan, primeira emissora da Bahia. Retransmitia a extinta TV Tupi, presidida pelo jornalista Assis Chateaubriand

Balanço Geral estreia na TV, quatro anos após surgir como programa de rádio

1997

Raimundo Varela assume o Balanço Geral, com uma lógica diferente dos outros telejornalistas locais: desbocado, sem filtro, populista

Cumplicidade construída

Quando a pergunta muda de “o que um jornalista de TV precisa fazer?” para “quem representa a população de Salvador na TV?”, alguns nomes aparecem com frequência. Vão de José Eduardo e seu jornalismo popular e pedidos de ajuda dos espectadores a Jéssica Senra e suas opiniões francas sobre as questões que afligem a cidade, passando por Andrea Silva e os sufocos enfrentados no transporte público soteropolitano.

Não é por acaso. Para Andrea Silva, uma carreira de 31 anos ao lado dos baianos moldou essa concepção. Como repórter da TV Bahia, a jornalista comandou por anos os quadros Minha Vida no Buzu e Desaparecidos. No primeiro, que era veiculado todas as terças-feiras no Jornal da Manhã, a repórter embarcava ao vivo no transporte público de Salvador para mostrar a rotina de quem depende dos coletivos e ouvir queixas dos passageiros. Já no segundo, às quartas-feiras no Bahia Meio Dia, ela ouvia o drama de famílias e amigos que estavam em busca de parentes que sumiram.

Uma dessas pessoas foi Josenilda Lima, hoje com 73 anos. Entre os anos 2000 e 2005, a professora aposentada viveu o período mais angustiante de sua vida, enquanto buscava respostas sobre o paradeiro da filha Simone, que desapareceu durante uma viagem para o Vale do Capão, na Chapada Diamantina, aos 26 anos. Foram incontáveis os dias em que fez o trajeto até a Praça da Piedade para segurar uma foto da filha para as câmeras da TV Bahia.

A expectativa criada pela visibilidade da televisão mantinha a esperança viva nela e em outros familiares que faziam com frequência esse mesmo caminho. Cinco anos após o desaparecimento, a morte de Simone foi confirmada. Apesar da dor que essa época carrega, Josenilda guarda algumas lembranças com ternura.

“Minha filha desapareceu em 2000. Quem apresentava esse programa da TV Bahia na época era Casimiro Neto. Ele saiu, eu fiquei triste, chorei para caramba, mas quando Andrea chegou fiquei muito aliviada. Ela é uma pessoa muito sensível. Andrea deixava a gente muito à vontade, dava força para as pessoas. Estava ali sempre dando um incentivo, uma palavra de consolo”, lembra.

A identificação com os jornalistas é um ponto inicial para que se estabeleça uma conexão de confiança entre o público e esses profissionais, que coloca os noticiadores em posições além da mera transmissão de informações. Assim, nascem relações como um carinho quase fraternal pela figura na TV, o fanatismo e a crença de que a pessoa que segura o microfone tem o poder de mudança. “Existe uma relação com você se familiarizar com aquele profissional naquele horário. Você sabe que vai ouvir aquela voz, sabe quais são as expectativas que tem em relação ao programa”, afirma a professora Itania Gomes.

Andrea diz ter plena consciência da responsabilidade que carregava. Segundo ela, foram esses dois quadros, pautados no serviço, que a popularizaram aos olhos dos baianos, e o motivo é simples: “é a vida como ela é. Eu estava ali mostrando a vida como ela é e a mim como eu sou”, defende.

Hoje, sente falta desse jornalismo. Percebe que esse formato de reportagens, voltado para necessidades imediatas do público, está deixando de existir, tanto na TV Bahia como em outras emissoras, e dando lugar à urgência das pautas de segurança pública.

“Eu acho que a gente precisa fazer mais, muito mais, dos quadros em que damos voz às pessoas, em que defendemos o que as pessoas estão precisando. Infelizmente, estamos muito pautados pela violência e deixamos um pouco menos amparado esse lado do jornalismo que atende as pessoas. Da pauta da vida, do povo, do dia-a-dia, de quem precisa ser ouvido”, diz.

REPORTAGEM-1_-_A-voz-do-povo_-3.jpg

Andrea se preparando para o jornal

Moradora da Federação, ela nota os olhares de espanto que recebe quando decide ir andando até a Rede Bahia, onde ocupa hoje a posição de apresentadora do Bahia Meio Dia ao lado de Vanderson Nascimento. Vai à feira, anda pelo bairro, pega metrô, ônibus e BRT. A mesma rotina de muitos soteropolitanos, com a exceção dos ocasionais pedidos de fotos e outros um pouco mais exigentes: que ela leve o poder do microfone para as urnas. A jornalista conta que não são raras as vezes que sai na rua e recebe comentários como: “você podia entrar na política, vai representar a gente tão bem”. Para esses, a resposta sempre é a mesma.

“Eu digo que é uma decisão muito séria. É incompatível tomar a decisão de entrar no caminho da política sendo jornalista. Você tem que abrir mão da carreira no jornalismo, né? Do ponto de vista editorial é antiético, do ponto de vista pessoal também não é viável. Mas é algo a estudar, a pensar. Para o futuro, quem sabe”, antecipa.

Desde as primeiras menções ao “quarto poder”, muito se debateu sobre o fundamento dessa visão e como ela se encaixaria em diferentes culturas. Mas continuou firme e forte a figura do jornalista como um defensor da população, alguém que ecoa as demandas, seja nas ruas ou atrás de uma bancada. Na Bahia, essa tendência se fortaleceu com o surgimento da TV Aratu, então afiliada da TV Globo no estado e atual afiliada do SBT, no fim da década de 1960. Enquanto a TV Itapoan, primeira emissora do estado, nasceu com um caráter experimental, a Aratu trouxe o direcionamento para as mazelas da cidade, escancarando-as.

Tempos depois, o jornalismo popular, voltado para as queixas e demandas dos baianos, se consagrou através de um nome bem conhecido no estado: Raimundo Varela. Foi ele quem fundou o Balanço Geral, que transita entre o jornalismo comunitário e policial, e que foi levado posteriormente para as afiliadas da Record Brasil afora.

“Eu achava ele corajoso, valente, sem medo de dizer o que pensava. Ele era um exemplo para mim. Era uma pessoa que pensava como eu penso e que podia dizer, tinha como e onde dizer. Eu sempre concordei com aquele cartão vermelho dele. ‘Vai, Varela, fala aí o que eu não posso dizer. Fala aí por mim’”, relata a atriz Jorgina Alvim, de 64 anos. “Eu queria que ele fosse prefeito. Votaria nele uma vez, só porque não poderia votar mais.”

Com seus cartões vermelhos e verdes, batidas na mesa e voz imponente, o apresentador dizia o que pensava e assim atraiu espectadores fiéis. Varela, que morreu em 2023 aos 75 anos, teve muitos trabalhos antes de entrar na comunicação, mas foi nessa área que se consolidou e dedicou-se por mais de cinco décadas.

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De igual para igual

Dos mais de 45 anos no jornalismo, a maior parte José Raimundo passou na estrada, conhecendo e contando histórias Brasil afora. Como repórter da TV Bahia e autor de reportagens para o Jornal Nacional e Globo Repórter, foram 31 anos, nos quais viu todo tipo de bioma, ouviu relatos dos mais variados e manteve uma crença fixa: a de que precisava escutar atentamente e interpretar os relatos da forma mais simples possível. Queria estar em pé de igualdade com os entrevistados e telespectadores. Noticiar de um jeito que fosse compreendido por qualquer pessoa.

“Toda vez que eu me envolvia com histórias e personagens marcantes, eu procurava me colocar muito na mesma posição que a da pessoa, sem em nenhum momento deixar algum vestígio de superioridade, até porque não era isso. E esse é um exercício interessante, conquistar a confiança das pessoas. Fazer com que elas percebam que você não está ali para usufruir da história e se beneficiar. Você está contando uma história para beneficiar uma pessoa que merece ser beneficiada, para beneficiar uma comunidade, para dar voz. Para tentar ajudar de alguma forma”, conta.

"O jornalismo é aliado das comunidades, aliado das pessoas que precisam ser ouvidas, que precisam ser enxergadas"

Em mais de uma ocasião, ele defendeu que o jornalista é o “interlocutor entre um veículo e a comunidade onde atua”. O personagem, por sua vez, seria a estrela, assim como a história que está sendo contada. É o noticiador o responsável por costurar a história da forma mais atraente – mas sem nada além da verdade.

Pensando assim, levou a carreira. O repórter tímido de Riachão do Jacuípe fez amizade com as câmeras e com quem assistia de casa às imagens que elas produziam. Para telejornais locais e programas como Globo Repórter e Jornal Nacional, ele fez reportagens especiais do sertão nordestino ao coração da Amazônia. Os assuntos variavam: falou de adoção ilegal, mostrou paraísos baianos e denunciou crimes ambientais. Em todas, defende ele, sua convicção se manteve firme e forte.

O resultado foi centenas de sugestões de pautas ano após ano, que hoje continuam a chegar, mas de outro jeito: através de mensagens no Instagram. No dia da entrevista, por exemplo, havia recebido uma. “Era uma pessoa lá do Ceará querendo contar uma história e me convidando para ir à região dela.”

Cumplicidade construída

Quando a pergunta muda de “o que um jornalista de TV precisa fazer?” para “quem representa a população de Salvador na TV?”, alguns nomes aparecem com frequência. Vão de Zé Eduardo e seu jornalismo popular e pedidos de ajuda dos espectadores a Jéssica Senra e suas opiniões francas sobre as questões que afligem a cidade, passando por Andrea Silva e os sufocos enfrentados no transporte público soteropolitano.

Não é por acaso. Para Andrea Silva, uma carreira de 31 anos ao lado dos baianos moldou essa concepção. Como repórter da TV Bahia, a jornalista comandou por anos os quadros Minha Vida no Buzu e Desaparecidos. No primeiro, que era veiculado todas as terças-feiras no Jornal da Manhã, a repórter embarcava ao vivo no transporte público de Salvador para mostrar a rotina de quem depende dos coletivos e ouvir queixas dos passageiros. Já no segundo, às quartas-feiras no Bahia Meio Dia, ela ouvia o drama de famílias e amigos que estavam em busca de parentes que sumiram.

Uma dessas pessoas foi Josenilda Lima, hoje com 73 anos. Entre os anos 2000 e 2005, a professora aposentada viveu o período mais angustiante de sua vida, enquanto buscava respostas sobre o paradeiro da filha Simone, que desapareceu durante uma viagem para o Vale do Capão, na Chapada Diamantina, aos 26 anos. Foram incontáveis os dias em que fez o trajeto até a Praça da Piedade para segurar uma foto da filha para as câmeras da TV Bahia.

A expectativa criada pela visibilidade da televisão mantinha a esperança viva nela e em outros familiares que faziam com frequência esse mesmo caminho. Cinco anos após o desaparecimento, a morte de Simone foi confirmada. Apesar da dor que essa época carrega, Josenilda guarda algumas lembranças com ternura.

“Minha filha desapareceu em 2000. Quem apresentava esse programa da TV Bahia na época era Casimiro Neto. Ele saiu, eu fiquei triste, chorei para caramba, mas quando Andrea chegou fiquei muito aliviada. Ela é uma pessoa muito sensível. Andrea deixava a gente muito à vontade, dava força para as pessoas. Estava ali sempre dando um incentivo, uma palavra de consolo”, lembra.

A identificação com os jornalistas é um ponto inicial para que se estabeleça uma conexão de confiança entre o público e esses profissionais, que coloca os noticiadores em posições além da mera transmissão de informação. Assim, nascem relações como um carinho quase fraternal pela figura na TV, o fanatismo e a crença de que a pessoa que segura o microfone tem o poder de mudança. “Existe uma relação com você se familiarizar com aquele profissional naquele horário. Você sabe que vai ouvir aquela voz, sabe quais são as expectativas que tem em relação ao programa”, afirma a professora Itania Gomes.

Andrea diz ter plena consciência da responsabilidade que carregava. Segundo ela, foram esses dois quadros, pautados no serviço, que a popularizaram aos olhos dos baianos, e o motivo é simples: “é a vida como ela é. Eu estava ali mostrando a vida como ela é e a mim como eu sou”, defende.

Hoje, sente falta desse jornalismo. Percebe que esse formato de reportagens, voltado para necessidades imediatas do público, está deixando de existir, tanto na TV Bahia como em outras emissoras, e dando lugar à urgência das pautas de segurança pública.

“Eu acho que a gente precisa fazer mais, muito mais, dos quadros em que damos voz às pessoas, em que defendemos o que as pessoas estão precisando. Infelizmente, estamos muito pautados pela violência e deixamos um pouco menos amparado esse lado do jornalismo que atende as pessoas. Da pauta da vida, do povo, do dia-a-dia, de quem precisa ser ouvido”, diz.

REPORTAGEM-1_-_A-voz-do-povo_-3.jpg

Andrea se preparando para apresentar o jornal

Moradora da Federação, ela nota os olhares de espanto que recebe quando decide ir andando até a Rede Bahia, onde ocupa hoje a posição de apresentadora do Bahia Meio Dia ao lado de Vanderson Nascimento. Vai à feira, anda pelo bairro, pega metrô, ônibus e BRT. A mesma rotina de muitos soteropolitanos, com a exceção dos ocasionais pedidos de fotos e outros um pouco mais exigentes: que ela leve o poder do microfone para as urnas. A jornalista conta que não são raras as vezes que sai na rua e recebe comentários como: “você podia entrar na política, vai representar a gente tão bem”. Para esses, a resposta sempre é a mesma.

“Eu digo que é uma decisão muito séria. É incompatível tomar a decisão de entrar no caminho da política sendo jornalista. Você tem que abrir mão da carreira no jornalismo, né? Do ponto de vista editorial é antiético, do ponto de vista pessoal também não é viável. Mas é algo a estudar, a pensar. Para o futuro, quem sabe”, antecipa.

Espectadores-repórteres

Há poucas décadas, quem quisesse reclamar de um buraco no asfalto da própria rua ou de outras questões que estivessem causando dor de cabeça tinha um ritual definido: ligar para a emissora de TV desejada ou escrever uma carta relatando o problema e enviar para a redação. E esperar, o que talvez fosse a parte mais difícil.

Hoje, o caminho é mais fácil. Se algo acontece em qualquer lugar da cidade, basta abrir a câmera do celular, gravar um vídeo e compartilhar para abastecer um telejornal.  Basta mandar uma mensagem instantânea para que exista a chance de ser visto. Os canais são muitos: WhatsApp, X, SMS, hashtags específicas para cada programa. Os espectadores, que gravam, publicam e enviam essas imagens ou relatos, passam a exercer uma espécie de papel de coprodutores da notícia.

As emissoras incorporam essas possibilidades, disponibilizando números de telefone e canais feitos especialmente para receber as mensagens de quem assiste. As denúncias, antes mediadas pela figura do jornalista na tela, agora têm a chance de ser veiculadas diretamente, com seu nome nos créditos. A TV continua a amplificar essa voz, mas agora de outra forma. É o que explica Valquíria Kneipp, diretora da regional Nordeste da Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia (Alcar) e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

“[Os programas] criam esse ambiente em que a pessoa se sente dentro, dona do telejornal. A população tem a certeza de que faz parte daquilo, e esse é o sentimento que eles querem passar para o telespectador. E a gente sabe por que isso, né? Porque a televisão vem perdendo audiência, que se espalhou. Não é mais só rádio, televisão e jornal, a gente tem o jornalismo online, a internet, as redes sociais. A informação chega o tempo todo no seu celular”, diz.

Para Kneipp, esse populismo é uma das estratégias usadas pelas emissoras para alcançar a audiência em todas as suas camadas e, assim, estreitar a afinidade. “E isso é milimetricamente calculado de acordo com a audiência que esses programas populares conseguem atingir. Creio que as pessoas tendem a adotar esses jornalistas mais ‘escrachados’ porque se identificam com a forma que eles se comportam e com a linguagem adotada por eles”, diz.

A professora reforça que a participação sempre existiu, não é um fenômeno e nem algo recente, mas foi potencializada a partir dos recursos que surgiram com o passar do tempo. “E, como [a interação] é mais fácil e mais rápida hoje em dia, todo mundo pode fazer. É por isso que tem esse volume e essa exigência, todo mundo quer participar. A participação é uma regra. Não tem jornalismo sem ela, por isso o repórter acaba se transformando nesse portador da voz do povo: ele tem que atender os anseios da população”, afirma.

A conexão que vem de se enxergar nas telas, seja diretamente ou através da identificação com o que é dito pelos repórteres e apresentadores, é o pontapé inicial para outras formas de vínculos com esses profissionais. Além da notícia, o jornalista se transforma em família, ídolo, herói e até representante político.

Autora do livro "Voz e vez da redação: memórias da trajetória de formação do telejornalista brasileiro", Valquíria Aparecida Passos Kneipp tem mestrado (2002) e doutorado (2008) em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Atualmente, além de dirigir a regional Nordeste da Alcar e lecionar na UFRN, integra o Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, na Linha de Pesquisa Mídia e Práticas Socioculturais.

De igual para igual

Dos mais de 45 anos no jornalismo, a maior parte José Raimundo passou na estrada, conhecendo e contando histórias Brasil afora. Como repórter da TV Bahia e autor de reportagens para o Jornal Nacional e Globo Repórter, foram 31 anos, nos quais viu todo tipo de bioma, ouviu relatos dos mais variados e manteve uma crença fixa: a de que precisava escutar atentamente e interpretar os relatos da forma mais simples possível. Queria estar em pé de igualdade com os entrevistados e telespectadores. Noticiar de um jeito que fosse compreendido por qualquer pessoa.

“Toda vez que eu me envolvia com histórias e personagens marcantes, eu procurava me colocar muito na mesma posição que a da pessoa, sem em nenhum momento deixar algum vestígio de superioridade, até porque não era isso. E esse é um exercício interessante, conquistar a confiança das pessoas. Fazer com que elas percebam que você não está ali para usufruir da história e se beneficiar. Você está contando uma história para beneficiar uma pessoa que merece ser beneficiada, para beneficiar uma comunidade, para dar voz. Para tentar ajudar de alguma forma”, conta.

Em mais de uma ocasião, ele defendeu que o jornalista é o “interlocutor entre um veículo e a comunidade onde atua”. O personagem, por sua vez, seria a estrela, assim como a história que está sendo contada. É o noticiador o responsável por costurar a história da forma mais atraente – mas sem nada além da verdade.

"O jornalismo é aliado das comunidades, aliado das pessoas que precisam ser ouvidas, que precisam ser enxergadas"

Pensando assim, levou a carreira. O repórter tímido de Riachão do Jacuípe fez amizade com as câmeras e com quem assistia de casa às imagens que elas produziam. Para telejornais locais e programas como Globo Repórter e Jornal Nacional, ele fez reportagens especiais do sertão nordestino ao coração da Amazônia. Os assuntos variavam: falou de adoção ilegal, mostrou paraísos baianos e denunciou crimes ambientais. Em todas, defende ele, sua convicção se manteve firme e forte.

O resultado foi centenas de sugestões de pautas ano após ano, que hoje continuam a chegar, mas de outro jeito: através de mensagens no Instagram. No dia da entrevista, por exemplo, havia recebido uma. “Era uma pessoa lá do Ceará querendo contar uma história e me convidando para ir à região dela.”

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Espectadores-repórteres

Há poucas décadas, quem quisesse reclamar de um buraco no asfalto da própria rua ou de outras questões que estivessem causando dor de cabeça tinha um ritual definido: ligar para a emissora de TV desejada ou escrever uma carta relatando o problema e enviar para a redação. E esperar, o que talvez fosse a parte mais difícil.

Hoje, o caminho é mais fácil. Se algo acontece em qualquer lugar da cidade, basta abrir a câmera do celular, gravar um vídeo e compartilhar para abastecer um telejornal.  Basta mandar uma mensagem instantânea para que exista a chance de ser visto. Os canais são muitos: WhatsApp, X, SMS, hashtags específicas para cada programa. Os espectadores, que gravam, publicam e enviam essas imagens ou relatos, passam a exercer uma espécie de papel de coprodutores da notícia.

As emissoras incorporam essas possibilidades, disponibilizando números de telefone e canais feitos especialmente para receber as mensagens de quem assiste. As denúncias, antes mediadas pela figura do jornalista na tela, agora têm a chance de ser veiculadas diretamente, com seu nome nos créditos. A TV continua a amplificar essa voz, mas agora de outra forma. É o que explica Valquíria Kneipp, diretora da regional Nordeste da Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia (Alcar) e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

“[Os programas] criam esse ambiente em que a pessoa se sente dentro, dona do telejornal. A população tem a certeza de que faz parte daquilo, e esse é o sentimento que eles querem passar para o telespectador. E a gente sabe por que isso, né? Porque a televisão vem perdendo audiência, que se espalhou. Não é mais só rádio, televisão e jornal, a gente tem o jornalismo online, a internet, as redes sociais. A informação chega o tempo todo no seu celular”, diz.

Para Kneipp, esse populismo é uma das estratégias usadas pelas emissoras para alcançar a audiência em todas as suas camadas e, assim, estreitar a afinidade. “E isso é milimetricamente calculado de acordo com a audiência que esses programas populares conseguem atingir. Creio que as pessoas tendem a adotar esses jornalistas mais ‘escrachados’ porque se identificam com a forma que eles se comportam e com a linguagem adotada por eles”, diz.

A professora reforça que a participação sempre existiu, não é um fenômeno e nem algo recente, mas foi potencializada a partir dos recursos que surgiram com o passar do tempo. “E, como [a interação] é mais fácil e mais rápida hoje em dia, todo mundo pode fazer. É por isso que tem esse volume e essa exigência, todo mundo quer participar. A participação é uma regra. Não tem jornalismo sem ela, por isso o repórter acaba se transformando nesse portador da voz do povo: ele tem que atender os anseios da população”, afirma.

A conexão que vem de se enxergar nas telas, seja diretamente ou através da identificação com o que é dito pelos repórteres e apresentadores, é o pontapé inicial para outras formas de vínculos com esses profissionais. Além da notícia, o jornalista se transforma em família, ídolo, herói e até representante político.

Autora do livro "Voz e vez da redação: memórias da trajetória de formação do telejornalista brasileiro", Valquíria Aparecida Passos Kneipp tem mestrado (2002) e doutorado (2008) em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Atualmente, além de dirigir a regional Nordeste da Alcar e lecionar na UFRN, integra o Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, na Linha de Pesquisa Mídia e Práticas Socioculturais.

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